Querido Doutor.
Meu nome é Fellipe, com dois L, sabe? Comum, mas é com dois ‘’L’’, por favor, não se esqueça disso. Eu gosto de garotas com casacos grandes e garotos de barba. Eu gosto de batata frita com sorvete. Eu gosto de bebês sem dentes sorrindo e gosto de ouvir gente mastigar bolacha crocante. Eu gosto de pessoas com óculos, gosto mãos grandes e máquinas fotográficas. Eu gosto de plástico pegando fogo e gosto de vestir roupas que não são minhas. Eu gosto de ser outra pessoa e gosto de pessoas que não riem por qualquer coisa, nunca. E gosto de risadas altas, gosto de sorrisos. Gosto de água caindo. Gosto de televisões desligadas, gosto de cheiro de estojo e de livros velhos. Eu meio que gosto de alguém que tem uma pinta na boca. Eu gosto de tatuagens e gosto de bares velhos, gosto de estradas vazias, caminhões e palavras que não conheço. Eu gosto da noite. Eu gosto de palavrões. Gosto do meu cabelo e gosto do som do garfo batendo no prato. Gosto de dedos entrelaçados e de xícaras de café. Gosto de camas na praia e chuva dentro de casa. Gosto de cabanas de lençóis. Eu amo comida. Às vezes acho que posso amar tudo que existe por aí, do meu jeito eu gosto do que me cerca. É como se houvesse uma diferença entre as coisas que gosto e tudo, eu gosto de tudo, não de todas as pessoas, a minoria delas, mas gosto de tudo. Minha Mãe não me entende, mas me ama. Doutor, por que eu tenho que falar sobre coisas que odeio? Eu me perco. Eu odeio cadeiras. Eu odeio quem é pouco, odeio pessoas que avisam que querem falar importante em vez de falar algo importante. Eu odeio minhas orelhas. Eu odeio noticiários. Eu odeio vidros que entram na pele. Eu odeio quando a ponta da minha unha do pé encosta na minha meia. Eu odeio sentir frio na barriga, mas eu também meio que amo sentir frio na barriga. Eu odeio quem diz ‘’eu também’’. Eu odeio paredes. Eu odeio pisos de duas cores e odeio cadarços em laços, mas gosto de cadarços. Eu odeio números e odeio convites. Eu odeio opiniões. Eu odeio janelas de ônibus. Eu odeio lágrimas e odeio letra maiúscula, eu odeio você Doutor, desculpe.